Projeto Ave Missões: Pesquisa, Educação Ambiental e Conservação com Aves da Região Noroeste do Rio Grande do Sul

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Conhecendo os Tinamídeos da região Noroeste-RS

Macuco no Parque do Turvo. Foto: D. Meller.
Tinamídeos são aves "gorduchinhas" com hábitos estritamente terrícolas, incluindo entre seus representantes as perdizes, os nambus e o macuco.

De difícil observação visual possuem, no entanto, cantos tão peculiares e fortes que revelam tão logo sua presença nos ambientes que habitam.

Muito conhecidas popularmente, algumas espécies são procuradas por caçadores fissurados pelo hobby, com seus cachorros perdigueiros; outros as utilizam para inspiração na arte musical ou então no contexto da conservação ambiental.


Perdiz ou codorna-amarelaNothura maculosa

Comecemos pela espécie mais comumente encontrada em toda a região. Habitante de áreas abertas, incluindo campos limpos e lavouras, a perdiz é facilmente avistada atravessando estradas de terra ao longo de áreas rurais. Seu canto é composto por uma sequência de assovios agudos e flauteados, terminando em um trinado longo e descendente. Curioso é que confiando em sua plumagem ela se camufla na paisagem de tal forma que permite ao observador uma grande aproximação. Quando a aproximação é muita, então a ave voa de forma afoita, às vezes assustando aquele despercebido de sua presença. A espécie aumentou sua distribuição ao longo da região com o desmatamento extensivo da Mata do Alto Uruguai, ocorrendo agora em áreas onde no passado não estava presente, como nos arredores do Parque Estadual do Turvo (Belton 1994, Silva et al. 2005).

Perdiz ou codorna-amarela (Nothura maculosa) na Granja do Sossego em Santo Ângelo. Foto: D. Meller.

Perdigão ou perdiz - Rynchotus rufescens

Espécie de grande porte, é, assim como a anterior, muito procurada por caçadores. Possui um canto alto e flauteado, composto por poucas notas melodiosas, que representa a maneira mais fácil de notar a presença da ave em qualquer ambiente. Apesar de grande, o perdigão se camufla muito bem, permanecendo imperceptível no chão de campos sujos, seu ambiente preferencial. Ocorre também em lavouras e banhados. É possível que a espécie sofra com a perda de campos nativos (Bencke et al. 2003).

Perdigão ou perdiz (Rynchotus rufescens) na Granja do Sossego em Santo Ângelo.

Inambuxororó - Crypturellus parvirostris

Pequena espécie de nambu que ocorre em áreas abertas, incluindo plantações de soja e trigo, campos nativos e capoeiras. Possui um canto bastante peculiar e agudo. Também emite um trinado, ouvido mesmo nas horas mais quentes do dia. Além do bico, as patas também são avermelhadas, o que o diferencia do inambuxintã, descrito a seguir. Assim como a perdiz, é outra espécie que se expandiu pela região noroeste favorecida pelo desmatamento (Belton 1994, Silva et al. 2005).

Inambuxororó (Crypturellus parvirostris) em Palmitinho, no entorno da Terra Indígena do Guarita. Foto: D. Meller.

Inambuxintã - Crypturellus tataupa

Diferentemente do anterior, esta espécie possui hábitos florestais, podendo ocorrer também em áreas de capoeira. Tem um canto forte e característico, o que permite identificá-lo prontamente ao ser ouvido. Note que as patas desta espécie são mais escuras, quando comparadas com o inambuxororó; seu bico também é maior e de vermelho menos vivo. A espécie possui uma ampla distribuição na região, ocorrendo mesmo em matas menores (Belton 1994, Meller 2011).

Inambuxintã (Crypturellus tataupa) no Parque Estadual do Turvo. Foto: D. Meller.

Inambuguaçu - Crypturellus obsoletus

O maior nambu do gênero com ocorrência na região. De hábitos estritamente florestais, o inambuguaçu possui um canto alto e ascendente, com notas agudas e estridentes. Diferentemente dos outros do gênero, seu bico é escuro; as patas também o são. Não é encontrado com tanta facilidade fora dos grandes blocos florestais da região, sendo mais comum no Parque Estadual do Turvo e na Terra Indígena do Guarita (Silva et al. 2005, Fialho e Setz 2007).

Inambuguaçu (Crypturellus obsoletus) no fragmento da Tenda do Matão, em Campo Novo.

Macuco - Tinamus solitarius
  
A maior espécie da família com ocorrência na região. Endêmico da Mata Atlântica, o macuco tem desaparecido com a perda das florestas contínuas, não ocorrendo em fragmentos pequenos e isolados. A espécie é também muito visada por caçadores, dado o seu tamanho, que pode ser comparável ao de uma galinha. Em vista disso, o macuco é considerado em ameaça de extinção no Rio Grande do Sul (Bencke et al. 2003). Seu canto consiste de um profundo assovio flauteado, frequentemente emitido no entardecer das matas onde habita. Costuma pernoitar empoleirado em árvores, muitas vezes acima de trilhas ou estradas, curiosamente podendo se posicionar de forma ao observador confundí-lo com uma coruja, o que pode ser um tipo de mimetismo como prevenção a ataques de predadores noturnos.

Macuco (Tinamus solitarius) à beira do Rio Uruguai no Parque Estadual do Turvo. Foto: D. Meller.

Se tem uma coisa que podemos aprender com os tinamídeos é a discrição, virtude própria daqueles que não querem se aparecer. Por outro lado, não é por falta de beleza que se escondem, e nem são menos apreciados por conta disso, muito pelo contrário, cada vez que aparecem encantam aqueles que os observam. Mas se pudéssemos dar uma dica aos tinamídeos seria esta: saibam a quem se mostrar, pois em meio à natureza nem tudo que reluz é ouro...


Referências:
  • Belton, W. (1994) Aves do Rio Grande do Sul, distribuição e biologia. São Leopoldo: Unisinos. 584 p.
  • Bencke, G.A.; C.S. Fontana; R.A. Dias; G.N. Maurício e J.K.F. Mähler, Jr. (2003) Aves, p. 189-479. Em: Fontana, C.S.; G.A. Bencke e R.E. Reis (eds) Livro vermelho da fauna ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPUCRS.
  • Fialho, M.S. e E.Z.F. Setz (2007) Riqueza e abundância da fauna de médio e grande porte em três modelos de áreas protegidas no sul do Brasil. 118 f. Tese (Doutorado em Ecologia) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
  • Silva, C.P.; J.K.F. Mähler Jr.; S.B. Marcuzzo e S. Ferreira. (2005) Plano de manejo do Parque Estadual do Turvo. Porto Alegre: Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Disponível em: < http://www.sema.rs.gov.br/upload/Plano_manejo_PETurvo.pdf> Acesso em: [21 de agosto de 2011].
-------------------------------------------------------------------------------
Veja também:

-------------------------------------------------------------------------------

9 comentários:

  1. Excelente postagem sobre los Tinamiformes de tu región. Aquí donde vivo están las dos primeras, de las otras he visto al macuco solamente en las selvas de Misiones, muy difícil de verlas en ese ambiente, ojalá pueda verlas algún día. Muy buenas fotos y datos
    Saludos

    ResponderExcluir
  2. Gosto muito desta família de aves ,as minhas preferidas são o Inambuguaçu e a codorna-amarela ,sendo que adoro o canto do primeiro... Parabéns ,as fotos ficaram muito boas e a postagem também com muitas informações úteis ! ASS:Lucas N

    ResponderExcluir
  3. Grande post Dante.
    Esta foto do Macuco ficou excepcional.
    Aqui na serra apesar de eu andar pouco somente avistei e ouvi o Inambuguaçu.
    A pouco foi postado no WA registro do Macuco em Itaara.
    Não houve muitos comentarios na foto.
    Se a procedencia do registro for confirmada é um excelente registro para o centro do estado.
    Abraço.
    j-marcelo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim j-marcelo!!! O registro de Itaara é muito interessante e certamente é confirmado... eu vi tbm... Valeu, um grande abraço!

      Excluir
  4. Legal, Dante.
    Rafael Ritter

    ResponderExcluir
  5. Belíssimas fotos dos tinamídeos Dante!

    ResponderExcluir