Projeto Ave Missões: Pesquisa, Educação Ambiental e Conservação com Aves da Região Noroeste do Rio Grande do Sul

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Aves de Rapina: uma nova definição

*por Dante Andres Meller
Harpia (Harpia harpyja), a mais poderosa
águia do mundo. Zoológico de Los Angeles.
Foto: DAM.
Aves de rapina, ou simplesmente rapinantes, estão entre os grupos mais destacados dentre a classe das aves.

Frequentemente, são expressos como símbolos de poder e realeza, tanto pela força de suas patas ou acuidade de sua visão, como pela admiração de seu majestoso voo.

Há, porém, uma diversidade de espécies e nem todas possuem as características esperadas a se encontrar em um rapinante feroz e imponente, como uma harpia ou uma águia-real, por exemplo.
Águia-real (Aquila chrysaetos), um dos rapinantes mais emblemáticos do planeta. Yosemite National Park, CA. Foto: DAM.

Em relação a rapinantes, é comum o consenso de que alguns grupos não possuem vínculos ancestrais diretos e que as características compartilhadas são antes adquiridas pelo estilo de vida do que por parentesco. Isso é chamado de convergência adaptativa e explicaria porque urubus, gaviões, falcões e corujas possuem em comum algumas estruturas, como o bico e as patas.

 
 
Urubu-rei (Sarcoramphus papa), gavião-de-rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus), falcão-peregrino (Falco peregrinus) e mocho-dos-banhados (Asio flammeus), representando as 4 tradicionais ordens de rapinantes (Cathartiformes, Accipitriformes, Falconiformes e Strigiformes). Fotos: DAM.

Com base nisto, rapinantes seriam então agrupados por conta das caraterísticas adquiridas pelo estilo de vida que possuem, ou seja, o de agarrar/raptar suas presas. Por conta de certas exceções, tal conceito de agrupamento tem sido objeto de discordâncias. Há, por exemplo, rapinantes que são menos ferozes, consumindo insetos ou caramujos, os chamados "kites", como o gavião-caramujeiro. Há outros, ainda, que não rapinam de fato, como os urubus americanos e os abutres do velho mundo, que consomem quase que unicamente presas mortas ou indefesas, não as agarrando, já que suas unhas são pouco afiadas ou são incapazes de articular suas patas para tal. E há, também, aves de outras ordens que têm a capacidade de predar ou mesmo agarrar/raptar, mas que normalmente não são incluídas no grupo dos rapinantes, como os mandriões (Stercoraridae), os picanços (Laniidae) e os corvos (Corvidae).

 
 
 
Gavião-caramujeiro (Rosthramus sociabilis), urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura), abutre-de-capuz (Necrosyrtes monachus), mandrião-pomarino (Stercorarius pomarinus), picanço-americano (Lanius ludovicianus) e corvo (Corvus corax). Foto abutre-de-capuz: Rômulo Silva. Demais fotos: DAM.

No entanto, trabalhos recentes apresentam um novo entendimento sobre o agrupamento das aves de rapina e um recente artigo (link) discutiu a sua definição de forma mais aprofundada. Os autores deste artigo concluíram que não necessariamente o bico em forma de gancho ou o olhar poderoso são as características que definem os rapinantes como tais, e muitos menos a capacidade de rapinar ou não. Embora estas sejam características marcantes em grande parte dos integrantes deste grupo, certos rapinantes não as possuem tão desenvolvidas. Alguns passarinhos, por exemplo, podem enxergar tão bem quanto alguns gaviões, um biguá possui um bico curvo que lembra o de um rapinante e um papagaio pode agarrar seus alimentos com muita habilidade.

 
Biguás (Nannopterum brasilianus) e papagaio-charão (Amazona pretrei), exemplificando como certas aves não-rapinantes possuem bico em forma de gancho e mesmo facilidade em agarrar seu alimento com as patas. Fotos: DAM.

A parte mais inovadora do artigo, porém, é a de que certas características, como as patas/garras, são herança daquelas aves do terror pré-históricas e que esse é o vínculo que agrupa os rapinantes. Mais interessante, ainda, é a recomendação da inclusão das seriemas (Cariamidae) junto aos rapinantes. Estas, com suas duas espécies exclusivamente neotropicais, de fato já foram notadas por estudiosos de rapinantes há bastante tempo, sendo frequentemente comparadas àquela singular ave de rapina africana, o serpentário (Sagittarius serpentarius).

 
Seriema (Cariama cristata) e serpentário (Sagittarius serpentarius), duas aves frequentemente comparadas pelos seus hábitos terrícolas e pelo semelhante aspecto. Fotos: DAM e Rômulo Silva.

O agrupamento dos rapinantes, apresentado pelo recente artigo, portanto, seria o ilustrado no quadro cinza da figura abaixo. Outras aves por vezes confundidas como rapinantes, incluindo mandriões, corvos e picanchos, claramente não estariam representadas no grupo. Nestes casos, certas similaridades poderiam ser então explicadas por convergência adaptativa devido a semelhantes hábitos.

Filogenia de rapinantes e outros grupos de aves apresentada em McClure et al. 2019.

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Veja também:

Uiraçu: o ressurgimento após cem anos de extinção no RS!
No alto duma grápia havia uma harpia...
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5 comentários:

  1. Realmente interessante! Temos que rever nosso conceito de rapinantes! Como leigo, eu incluiria (antes da leitura) os mandriões no conceito, devido ao seu comportamento. E a convergência adaptativa realmente explica muita coisa! Em resumo, um post que é quase um artigo científico de tão esclarecedor. E legal que tu conseguiste usar o acervo de fotos do exterior!! Parabéns, amigo Dante!!

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    1. Obrigado Adaltro! A partir de agora vou olhar as seriemas de outro modo... hehehe Abraço

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  2. Muy interesante el post, con buena información, útil para todos los que nos gustan los temas de filogenia y convergencia adaptativa.
    Saludos

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  3. Excelente post, muito didático, parabéns! Realmente, veremos as seriemas de outra forma...

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