Projeto Ave Missões: Pesquisa, Educação Ambiental e Conservação com Aves da Região Noroeste do Rio Grande do Sul

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Como identificar uma ave?

*Por Dante Andres Meller
Pouco tempo atrás recebi uma postagem muito interessante sobre diferenças no modo como observadores costumam identificar aves.

Basicamente o texto falava sobre duas diferentes formas de reconhecer as aves. A primeira é lógica, racional, onde características são observadas e confrontadas com o conhecimento que a pessoa possui até chegar a uma identificação.

A segunda forma, adquirida após alguma experiência na atividade, é perceptiva, onde a ave é identificada através de uma série de características muitas vezes difíceis de serem descritas, chamadas comumente de "o jeitão da ave".

Quando começamos a observar aves tudo é novo e pouca familiaridade temos com as espécies. Ainda lembro quando na primeira saída a campo, sem nunca antes ter segurado um guia de identificação de aves, um sabiá-laranjeira apareceu e eu não fazia a mínima ideia do que se tratava. A espécie mais semelhante que conhecia era o joão-de-barro, mas o tal sabiá era diferente. Como a muitas crianças, as aves também me fascinavam na infância. Foi caçando passarinho de bodoque que comecei a treinar minha percepção para localizar aves. Mas minha lista de conhecimento era bastante limitada naquela época, incluindo a pomba-de-bando, o sanhaçu-cinzento, o bem-te-vi, o pombo-doméstico, o pardal, o anu-preto e o anu-branco. Alguns não eram chamados assim, mas conhecidos por outros nomes regionais. Gavião pra mim era tudo de uma mesma qualidade, e provavelmente eu não tenha visto muitas espécies além do gavião-carijó, do qual lembro bem, só não o conhecia por esse nome.

Teve uma situação curiosa quando devia ter uns 12 anos em que observei aves diferentes no alto de uma torre no centro de Santo Ângelo. Não soube dizer o que eram, lembravam gaviões, mas ao mesmo tempo eram diferentes. Muitos anos depois, já tendo um pouco de experiência na atividade de observação de aves, descobri que se tratavam de falcões-peregrinos, pois observei-os na mesma torre e voam da mesma forma como as aves daquela época.

Foram vários dias observando o falcão na torre até chegar à conclusão que se tratava do peregrino. Após um processo de eliminação a única espécie restante foi esta, o que na época (2008) era novidade para mim, pois não tinha binóculos com boa visibilidade, nem máquina fotográfica com longo alcance e pouca experiência com rapinantes. Falcão-peregrino (Falco peregrinus) fotografado em Santo Ângelo em 2013.

Voltando àquela postagem (veja aqui!), algo interessante comentado são os possíveis frutos que a observação de aves na infância traz à prática da atividade na vida adulta. O texto observa a probabilidade daqueles que observavam aves quando crianças terem mais facilidade para identificá-las depois de adultos simplesmente pelo jeitão que a ave apresenta (em inglês denominado GISS). Pessoas que começaram a observar aves apenas quando adultas já não teriam essa habilidade de forma tão natural, precisando de atributos lógicos e descritivos para chegar a uma conclusão sobre qual espécie estão observando. Parece fazer sentido, mas, como a própria autora do texto observa, a experiência é o que certamente faz um observador reconhecer uma ave pelo jeitão dela, sem necessariamente levantar uma série de características que a identificariam de forma lógica.

Apesar de achar que experiências com observação de aves na infância certamente influenciam na capacidade perceptiva do observador na vida adulta, algumas outras questões parecem ter relevância também. Lembro bem quando peguei um guia de campo pela primeira vez para tentar solucionar o caso do sabiá-laranjeira e, como muitos gaúchos, fui alegremente iniciado pelo guia do Belton (veja aqui!). Através desse belo guia surpreendi-me com a riqueza da avifauna gaúcha e com a quantidade de aves antes nunca conhecidas por mim, mais surpreendente ainda, muitas delas habitantes dos meus arredores.

Mas o que quero dizer é que estudar previamente guias de campo sempre me permitiu reconhecer as aves quando as via ao vivo pela primeira vez, e, em muitos casos, nem precisava pensar no porque realmente se tratava de tal espécie. Simplesmente a reconhecia como tal, já que havia visto ela nos livros! A sensação era sempre maravilhosa, especialmente para espécies que ansiava em ver na natureza. É claro que isso levou algum tempo, e, como qualquer observador de aves, tive que conhecer espécie por espécie (e existem muitas e muitas que ainda não vi!).

Trago comigo a memória de vários primeiros avistamentos na minha vida de observador de aves. Alguns deles foram realmente emocionantes, como este belo gavião-tesoura, que é certamente uma das espécies rapinantes mais elegantes de se observar. Além da minha observação, também lembro quando uma integrante do grupo Ave Missões avistou a espécie pela primeira vez e a maneira como se emocionou. Gavião-tesoura (Elanoides forficatus) no Posto da Mata, em São Martinho, RS.

Na prática de observação de aves, no entanto, nem tudo é tão acessível e previsível quanto nos livros, ainda mais quando procuramos uma espécie ou um grupo complicado, como as aves de rapina. Apesar de fascinantes e de modo geral um gavião é fácil de ser reconhecido como tal, no grupo existem algumas plumagens que desafiam mesmo os especialistas mais experientes a identificá-las corretamente. Além do mais, ao procurar espécies raras, pode acontecer do observador ficar duas horas parado em algum local esperando um gavião levantar voo e a única oportunidade de visualização são alguns poucos segundos, nem sempre tão perto quanto gostaríamos, nem sempre a favor do sol. Qual espécie era mesmo? A experiência conta bastante nessas horas, mas registros duvidosos sempre houveram e sempre haverão, o correto é sermos honestos nesse ponto. Confesso que a fotografia me ajudou muito em diversas situações, mas se você não tiver uma máquina, tenha ao menos uma observação confiável, que permita você ter certeza do que viu, porque nem sempre podemos confiar em nossos olhos (veja mais sobre isso neste post!).

Um fim de tarde estávamos sentado em frente ao portão do Parque Estadual do Turvo quando percebemos uma forma característica num dos galhos da araucária em frente e logo alguém sugeriu ser um araçari. Normalmente os araçaris pousam nas árvores desse local em fins de tarde. Sem binóculos, resolvi fotografar para confirmar a espécie. Se tratava de um engano relativamente comum: era um galho! Volta e meia avisto um "gavião-galho" em minhas observações, o engraçado é que está sempre pousado (rsss...). Foto a direita - Araçari-banana no Parque Estadual do Turvo por D. Meller.

Estudar desenhos e fotos ajuda a nos familiarizarmos com as formas e coloração das espécies. Conhecer os sons, principalmente em casos de ambientes florestais, é da mais alta importância para o observador. Saber as preferências de habitat de cada espécie, sua distribuição geográfica, hábitos migratórios, se é rara ou comum, etc. também são informações adquiridas previamente que podem estar envolvidas na hora de reconhecer uma ave pelo jeitão apresentado na situação. Isso tudo deve estar sedimentado no observador. Espécies comuns tendem a ser mais facilmente identificadas simplesmente pelo seu jeitão, enfim, as conhecemos melhor. É como reconhecer uma pessoa que nos é bem conhecida... não precisamos perguntar se ela é ela mesmo. No entanto, existem aquelas espécies que exigem mais cuidado na identificação. É o caso das espécies mais raras, das que possuem subespécies com características diferentes e das que possuem grande semelhança com outras. Nesses casos é fundamental basear a identificação em características diagnósticas que confirmem a espécie apontada pelo observador.

Ao ver a silhueta da ave acima a uma longa distância logo pude perceber que se tratava de algum tipo de gavião. Sua forma à distância primeiro me lembrou o falcão-relógio. Depois, olhando pelo binóculo, pude perceber um tom avermelhado abaixo da cabeça, o que me fez pensar no cauré, mas ainda sem uma certeza clara de que espécie se tratava. Já com uma certa aproximação a confirmação da espécie veio de forma definitiva e surpreendente: tratava-se de um raro tauató-pintado em plumagem juvenil. Tauató-pintado (Accipiter poliogaster) no Parque Estadual do Turvo.

Enfim, identificar aves pode ser um tipo de habilidade perceptiva fundamentada por uma série de conhecimentos adquiridos e experiências vividas, ou seja, é como andar sobre nuvens com os pés no chão. A prática nos traz segurança nas identificações, a isso chamamos de familiaridade. E como é bom além de poder observar nossas estimadas aves também as reconhecer, uma vez que sempre estão em nosso caminho, seja no campo, no mato ou na cidade.

Eai, conseguiu identificar a ave na silhueta da primeira foto???

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Birdwatching
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10 comentários:

  1. Muito legal o post, nunca vou me esquecer do emocionante encontro com o gavião -tesoura, gavião-pato, a anta, murucututu-de-barriga-amarela, píca-pau-de-cara-canela, entre tantos outros momentos agradáveis que convivi com este adorável Grupo o Ave Missões. :) . Ansiosa para a próxima saída!

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    1. Valeu Adelita!!! São sempre momentos marcantes mesmo... Abraços

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  2. Muito esclarecedor e útil esse post.
    Obrigado Dante por mais essa lição.
    Pensei muito no que me fez não reconhecer o Peixe-frito-pavonino, e certamente a falta de familiaridade com a ave foi fundamental.
    Pior que eu a reconheci, mas por sua raridade fiz um descarte mental (sabotagem)!
    Mas é assim, nada como observar a ave livre em seu habitat pra pegar o "jeitão"... os guias são importantíssimos mas só se pode dizer que conhece efetivamente uma espécie depois de ser pessoalmente apresentado a ela. Abraço

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    1. Valeu, Charles!!! Nesse universo das aves, estamos sempre aprendendo... Um grande abraço!!

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  3. Mais uma excelente postagem, Dante! Parabéns! Só faltou dizer que aquela integrante do grupo Ave Missões que se emocionou com o Gavião-peneira... ... se emocionou até as lágrimas, literalmente! Lembram ?

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    1. Sim Paulo!!! Lágrimas inesquecíveis... Valeu, grande abraço!

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  4. Belo post,parabéns!Os meus primeiros avistamentos mais emocionantes(mas relativamente comuns)foram :Ferro-velho,Quiri-quiri,Gavião-caramujeiro,Carrapateiro,Pombão,Cochicho e Curutié . ASS:Lucas N

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    1. Que legal Lucas!! Ferro-velho ainda é inédito pra mim... Abraço

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    2. Estive relendo a postagem e me recordei de mais espécies que observei pela primeira vez e identifiquei pelo seu ''jeitão'' : Saí andorinha , Bem te vi rajado ,Socó boi , Caraúna de cara branca , Gavião miúdo , Arapaçu verde , Neinei , Maçarico real , etc . Sei do que você está falando quando diz que quem lê e vê imagens das aves em guias e sites está mais preparado para identificar uma ave em campo , pois leio e pesquiso sobre as aves desde os 10 anos de idade e hoje com 13 já faço isso com eficácia . Ah ,e a propósito eu também comecei com o guia do Belton , juntamente com o ''Aves do Brasil Pantanal & Cerrado'' . Abraço . Ass:Lucas N

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