Projeto Ave Missões: Pesquisa, Educação Ambiental e Conservação com Aves da Região Noroeste do Rio Grande do Sul

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

São Borja: As Missões na Fronteira Oeste

Japacanins em São Borja. Foto: DAM.
* por Dante Andres Meller
Não é de hoje que a biodiversidade são-borjense chama atenção. 

Além de eu e a Ataiz virmos registrando aves interessantes no local a cerca de um ano, é já reconhecida a biodiversidade da área, com registros destacados tanto em livros e artigos, como no site Wikiaves.

Minha relação com São Borja, e a riqueza de suas aves aquáticas, remete à minha infância, quando ia passar as férias na granja de meu avô, localizada nas proximidades do Banhado do São Donato; entretanto, só a pouco entendi a qualidade das vivências ecológicas que foram semeadas em meu passado.

Tudo tem seu tempo... é o que muitas vezes ouvimos (ou dizemos) quando alguém precisa de esperança ou quando finalmente a realização de algo esperado a muito acontece. Demorou para o grupo visitar a Terra dos Presidentes, mas a saída veio na hora certa, dias após o incrível achado de um bando de sovis-do-norte.

Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) em São Borja. Foto: Pedro Sessegolo.

São Borja, com um significado importante no contexto histórico rio-grandense e brasileiro, também é uma referência quando o assunto é Missões. Embora atualmente esteja associada à Fronteira Oeste na divisão político-regional, sua ligação com as Missões é muito próxima, já que foi o primeiro dos sete povos. No contexto ambiental, difere em parte do resto da região, sendo seus vastos campos planos uma continuação daqueles de espinilho da Fronteira Oeste. No entanto, as matas ribeirinhas dos rios Uruguai e Icamaquã têm muito da Mata do Alto Uruguai em sua composição. O grande destaque, a meu ver, são as áreas úmidas. Com centenas de barragens, extensos banhados e matas parcialmente alagadas, a diversidade de ambientes úmidos favorece uma composição de avifauna bastante associada àquela dos Esteros del Ibera, que fica a alguns dezenas de quilômetros dali. O resultado é uma dinâmica de aves que resulta em um espetáculo pantaneiro.

Concentração de aves em uma barragem em São Borja. Foto: Ingrid Sessegolo.

Itaroquém

Nossa saída começou de fato no último sábado, pelos interiores de Santo Antônio das Missões, na localidade Itaroquém. Extensos campos rupestres, ora cobertos de espinilho ou encostados em matas de pau-ferro, instigavam algum encontro raro aos nossos olhos e câmeras. O fato de admirá-los, associado a alguns registros interessantes, foi suficiente para termos uma manhã satisfatória.

Caboclinho-branco (Sporophila pileata) em Santo Antônio das Missões. Foto: Ataiz C. Siqueira.

Graveteiro (Phacellodomus ruber) em Santo Antônio das Missões. Foto: Cláudio Furini.

Itaroquém em Santo Antônio das Missões. Foto: DAM.

Grupo reunido sobre a ponte do rio Icamaquã, entre Santo Antônio e São Borja. Foto: Ingrid Sessegolo.

Ingrid e Ataiz descansando à beira do Icamaquã, na divisa entre São Borja e  Santo Antônio das Missões. Foto: Ataiz C. Siqueira.

Sovis-do-norte

À tarde, já no Nhú-Porã, após um almoço preparado na casa da sogra, fomos em direção ao bando de sovis-do-norte, que recentemente havia sido descoberto pelos amigos Carlos Eduardo Agne e Paulo Bertagnolli próximo à cidade de São Borja. O Pedro Sessegolo, que estava conosco, foi quem nos  levou até o local, uma vez que já havia visto o bando também. Um pouco de sorte e um pouco de azar... O bando não estava mais ali, mas vimos 3 ou 4 indivíduos cruzando o local, o que rendeu alguma foto meio de longe para registro. No dia seguinte, eu e a Ataiz descobrimos que o bando continuava na área, mas estavam sobrevoando um extenso pinheiral de acesso limitado.

Sovi-do-norte (Ictinia mississippiensis) em São Borja. Foto: DAM.

Voltamos ao Nhú-Porã, dessa vez para percorrer o caminho tradicional que eu e a Ata viemos fazendo. A primeira parada foi em uma represa, que por estar com nível baixíssimo de água tem concentrado diversas aves de ambientes lodosos, como maçaricos, colhereiros, garças, etc.

Maçarico-de-colete (Calidris melanotos) em São Borja. Foto: Cláudio Furini.

Batuíra-de-coleira (Charadrius collaris) em São Borja. Foto: Cláudio Furini.

Colhereiros (Platalea ajaja) e pernilongos-de-costas-branca (Himantopus melanurus) em São Borja. Foto: Pedro Sessegolo.

Grupo observando aves à beira da barragem. Foto: Ingrid Sessegolo.

Trilha do papa-piri

Seguindo em direção ao extenso banhado que frequentamos, pegamos a "trilha do papa-piri". Tão logo entramos na trilha, registros de destaque foram, um por um, aparecendo. O primeiro foi um tricolino, seguido de uma sanã-parda. Depois, um caboclinho-de-papo-branco. Já na volta, frustrados pelo não aparecimento do papa-piri, um bate-bico resolveu se mostrar, o que me deixou muito contente, por ter sido a primeira vez que vemos a espécie em São Borja. Pra finalizar, vimos um sebinho-olho-de-ouro numa rápida aparição. A tarde fechava com um belo pôr-do-sol e a janta preparada pela sogra encerrava o sábado da melhor maneira possível.

Tricolino (Pseudocolopteryx sclateri) em São Borja. Foto: Pedro Sessegolo.

Sanã-parda (Laterallus melanophaius) em São Borja. Foto: Ataiz C. Siqueira,

Caboclinho-de-papo-branco (Sporophila palustris) em São Borja. Foto: Cláudio Furini.

Bate-bico (Phleocryptes melanops) em São Borja. Foto: DAM.

Sebinho-de-olho-de-ouro (Hemitriccus margaritaceiventer) em São Borja. Foto: DAM.

Observando as aves no banhado da Trilha do papa-piri. Foto: Ingrid Sessegolo.

Banhado na Trilha do papa-piri. Foto: DAM.

Pôr-do-sol no Nhú-Porã. Foto: Pedro Sessegolo.

Domingo, após o café da manhã, seguimos em direção à estrada novamente, dessa vez preparados para explorar pontos diferentes do caminho. O primeiro foi o local do chorão, que não nos deixou na mão, aparecendo e se mostrando bem. Seguindo em frente, um belo gavião-de-rabo-branco fez pose para fotos. A ideia era irmos direto à "trilha do socoí-vermelho", mas estava difícil, porque algumas aves simplesmente não nos deixavam ir em frente! (hehehe).

Chorão (Sporophila leucoptera) em São Borja. Foto: DAM.

Gavião-de-rabo-branco (Geranoaetus albicaudatus) em São Borja. Foto: DAM.

Trilha do socoí-vermelho

Já na trilha, o banhado mais uma vez se mostrou incrivelmente diverso. É verdade que estava um pouco quente, mas ainda assim muitas aves foram observadas, incluindo um belo casal de anus-corocas, socós-boi, um cardeal-do-banhado, diversos garibaldis, alguns carretões e um casal de marrecas-de-bico-roxo.

Casal de anus-coroca (Crotophaga major) em São Borja. Foto: Pedro Sessegolo.

Socó-boi (Tigrisoma lineatum) em São Borja. Foto: Cláudio Furini.

Cardeal-do-banhado (Amblyramphus holosericeus). Foto: DAM.

Macho do garibaldi (Chrysomus ruficapillus). Foto: Ataiz C. Siqueira. 

Fêmea do carretão (Agelasticus cyanopus) em São Borja. Foto:  DAM.

Casal de marrecas-de-bico-roxo (Nomonyx dominicus) em São Borja. Foto: Ataiz C. Siqueira.

Banhado na Trilha do socoí-vermelho. Foto: DAM.

Faltavam algumas aves a serem vistas, mas estava realmente muito quente e todos concordamos em voltar antes do término da caminhada. Na volta, ainda houveram dois registros captados pela querida Ataiz. Primeiro uma freirinha fêmea se mostrando caridosamente a nós. Depois, enquanto passávamos pelos anus-corocas, a Ataiz diz assim: "Foi aqui que os japacanins estavam outro dia". O bichinho só pode ter atendido pelo nome!, porque na mesma hora ele cantou e a Ataiz novamente: "Ó ele ali!" Foi hilário e magnífico! Um casal se exibindo na vegetação do banhado... uma bela visão que no RS poucos tiveram a oportunidade de ver.

Fêmea da freirinha (Arundinicola leucocephala) em São Borja. Foto: Ataiz C. Siqueira.

Japacanins (Donacobius atricapilla) em São Borja. Foto: Pedro Sessegolo.

Antes de voltarmos para o churrasco de encerramento preparado pelo sogro, uma breve passada por uma ponte com matas alagadas. Lá, entre outras coisas, havia um biguatinga e uma maria-cavaleira.

Biguatinga (Anhinga anhinga) em São Borja. Foto: Pedro Sessegolo.

Maria-cavaleira (Myiarchus ferox) em São Borja. Foto: Cláudio Furini.

Grupo reunido em cima da ponte. Foto: Ingrid Sessegolo.

Com cerca de 140 espécies registradas ao longo dos dois dias (veja lista), fechamos nossa saída com aquele sentimento de fim de semana especial, em que o grupo pode captar diversos registros interessantes e viver momentos a serem guardados no coração.

Um especialíssimo agradecimento aos pais da Ataiz, por toda hospitalidade com nosso grupo e também ao proprietário da fazenda que nos garantiu acesso ao banhado.

Um grande abraço a todos! Até a próxima...

Nascer-do-sol no Nhú-Porã. Foto: Ingrid Sessegolo.
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12 comentários:

  1. Show Dante, foi uma alegria ter participado desta saída. Lugar que temos de retornar pois ainda muitas espécies vão aparecer por lá. Quem sabe no inverno? Abração!!

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    1. Valeu Pedro! Sim, muita coisa a aparecer com certeza... Abraço

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  2. Um fim de semana super agradável! Prazer recebê-los!

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  3. Excelente post, meus parabéns! Belíssimas fotos e incríveis registros, muito importantes para o RS!

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  4. Muy interesante post, mostrando la salida que hicieron con amigos en una zona que tuve la suerte de al menos pasar y conocer algo de ella. Las especies son las mismas que se ven en Corrientes, que suerte que se vean por allá y que queden todavía remanentes de hábitat, las actividades agropecuarias por lo que vi están demasiado desarrolladas y han modificado mucho el ambiente, me recuerda un poco a la zona donde vivo donde también está bastante transformado.
    Me llama la atención que allá esté también con poca agua, acá hay muy pocas lluvias con al Niña y se está secando todo, este año aparecieron muchos Calidris melanotos
    Estuve buscando en Google algunos lugares para ver y encontré la iglesia, el puente y el río
    Saludos

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    1. Gracias pelo comentário Hernán! Sim, esse ano está muito seco mesmo e curiosamente tenho visto muitos C. melanotos também. Apesar da transformação da paisagem ainda existem algumas áreas boas de campo e banhados nessa região, pelo menos ao nível de RS, mas nada comparado com as vastas paisagens de Corrientes eu creio. Saludos amigo!

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  5. Maravilha, Dante/Ata! Que bom que os anfitriões representavam SÂngelo!! :)

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    1. Hehehe. Valeu Paulo! Um dia desses vocês tem que aparecer lá tbm... Um abraço

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  6. Belo post que só agora fui ler!! Parabéns a você e à Ataiz por colocarem São Borja "no mapa" da observação de aves! Fico imaginando as surpresas que o local ainda guarda.. Abraço!!

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    1. Valeu Adaltro! É, também me pego a imaginar o que ainda está por vir... vamos ver! Um abraço

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