Projeto Ave Missões: Pesquisa, Educação Ambiental e Conservação com Aves da Região Noroeste do Rio Grande do Sul

sábado, 23 de março de 2013

Dicas de fotografia

"Na alma do fotógrafo deve estar a busca pelo belo, e suas fotografias impregnadas dessa alma" (Fábio Colombini)
A fotografia de natureza é algo que tem despertado o interesse de muita gente e tem contribuído com a conservação da natureza, uma vez que difunde conhecimento sobre a ocorrência de espécies, denuncia ações que prejudicam o meio ambiente e cativa novas pessoas a reconhecer a beleza e a importância de nosso mundo natural.
Dentro de nossas limitações, elaboramos breves comentários e dicas sobre alguns aspectos da fotografia de natureza, demonstrando alguns exemplos em fotos. As informações foram baseadas em conversas com fotógrafos profissionais, amadores, em leituras de fotógrafos de natureza renomados, como Fábio Colombini e Araquém Alcântara, e também de conhecimentos adquiridos com a prática e leitura do manual da máquina, que recomendamos fortemente.

Esperamos que estas dicas possam inspirar e auxiliar em sua fotografia!

Gavião-de-asa-larga (Buteo platypterus) - A fotografia permitiu identificar a ave corretamente meses após o registro, já que tratava-se de uma ave rara, representando o primeiro registro para o sul do Brasil (Meller e Bencke 2012).

Máquinas fotográficas

De maneira geral podemos classificar as câmeras digitais em dois tipos: Compactas e dSLR (sigla para digital single lens reflex). As primeiras são uma ótima opção para fotógrafos iniciantes e aqueles que não desejam gastar muito ou carregar equipamentos pesados em campo. Atualmente existem modelos que oferecem zoom muito potentes (ex. 40x ou mais), o que é demasiado bom para fotografar aves, além de fazerem filmes de boa qualidade também e poderem ser firmadas a uma luneta (digiscoping). Uma desvantagem desses modelos é que não são tão resistentes a impactos e são menos ágeis na hora da focagem e do clique.

As máquinas dSLR são aquelas que possuem lentes cambiáveis, ou seja, que oferecem a opção de troca de lente. Elas são muito ágeis e fortes, porém mais pesadas e caras, mas, são as que melhores resultados podem oferecer. Porém, é preciso tirar algum tempo para entender melhor os ajustes possíveis que estas máquinas oferecem. Considere escolher marcas renomadas, como Canon ou Nikon, e ajuste a imagem para maior e melhor resolução possível, caso precise dar um corte grande depois.

Anambé-branco-de-bochecha-parda (Tityra inquisitor) - Apesar de estar usando uma máquina compacta com pouco zoom, ao firmá-la na luneta (técnica de digiscoping), pôde-se obter uma aproximação suficiente para fotografar a ave na copa de uma árvore. A qualidade da imagem, no entanto, é inferior àquelas das máquinas dSLR e de outras compactas com zoom mais potente.

Lentes

Basicamente existem três tipos de lentes que um fotógrafo precisa ter para cobrir quase todos os temas da fotografia de natureza: a teleobjetiva, a macro e a grande-angular. A primeira é particularmente importante para se fotografar aves e animais que não permitem muita aproximação. O ideal são as de no mínimo 300mm. As melhores são aquelas que permitem grandes aproximações e grandes aberturas de diafragma (ex. 500mm, F4.0), no entanto são extremamente caras e pesadas. Existe a possibilidade de acoplar um teleconverter, para aumentar a aproximação da lente, porém perde-se em definição e abertura. As lentes macro permitem explorar muito bem o mundo dos invertebrados, pequenas flores, fungos, etc., já que permitem uma grande aproximação do assunto. Uma lente macro de tamanho ideal pode ser 100mm. As grande-angulares, por fim, possuem grande campo focal e permitem captar muito bem paisagens. Uma dica aqui é destacar algo no primeiro plano, complementado por uma bela paisagem ao fundo. Deixa-se a abertura bem fechada (n° de F bem alto), afim de que se consiga foco em todos planos. Uma lente de boa escolha pode estar entre 18 e 28mm.


Salto do Yucumã - A imagem feita a 28mm pôde pegar bem a paisagem que, com F22 deu foco em todos os planos. Deu-se algum destaque para pedras e a queda d'água no primeiro plano, com as matas ao fundo. A velocidade baixa de 1/10s deu o efeito de véu na água e um grupo de pessoas no canto esquerdo da foto dá dimensão de tamanho à paisagem.

Uma maneira de suprir as três necessidades em uma ou duas lentes é escolher as lentes zoom, as quais podem possuir mais de uma das características citadas acima em uma só lente. No entanto, lentes fixas possuem melhor definição que lentes zoom, já que são feitas especificamente para cumprir uma determinada função, o que acabará gerando melhores resultados. É aconselhável escolher lentes da mesma marca da máquina.


Apesar de não ser comum o uso da lente teleobjetiva para captar paisagens, esta pode proporcionar resultados interessantes, já que achata a perspectiva, aproximando os planos.

Flash

O uso do flash pode garantir uma foto não tremida, porém seu resultado pode não ser o ideal, com uma imagem totalmente “chapada”. Uma maneira de evitar isso, quando se tem um flash externo, é usá-lo com rebatedores, apontando sua luz não diretamente no assunto, mas sim em algo que reflita a luz no objeto de interesse, como uma parede, a folhagem de uma árvore, etc.

Coruja-buraqueira (Athene cunicularia) - Em condições de baixa luz, como no fim da tarde, o flash pode
ser a única maneira de garantir uma foto com luz, no entanto pode deixar a imagem "chapada", sem detalhes
de relevo criado pelas sombras que uma incidência de luz num ângulo não direto traria.

Tripé

Garante uma foto não tremida com uso de velocidades mais baixas. Pode ser incômodo de ser levado a campo e não é nada ágil, particularmente ao se fotografar passarinhos inquietos no meio da mata. Quando usado de maneira certa, porém, pode garantir uma foto perfeita, tanto pelo uso da velocidade baixa, como de Fs mais altos e ISOs mais baixos. O melhor é ter um cabo disparador de mão, para não ter a vibração do clique na máquina, que pode prejudicar a foto. Outra maneira é usá-lo com o temporizador, que eliminaria também a necessidade do clique instantâneo, porém, caso seja uma ave, não se tem controle sobre qual ação ela esteja fazenda no exato momento da foto. Monopés também podem ser úteis e mais práticos, porém não tão eficientes quanto o tripé.

Catedral Angelopolitana - O uso do tripé resultou em uma imagem não tremida, apesar do tempo longo de exposição de 10s, que foi suficiente para capturar o instante em que o raio apareceu no céu.

Exposição ou velocidade

É o tempo em que o obturador fica aberto captando luz, chamado também de velocidade de disparo do obturador. Junto com a abertura, é um dos sistemas mais importantes a serem compreendidos quando se inicia na fotografia, já que ter um controle sobre o tempo de exposição poderá fazer a diferença entre uma foto tremida ou não. Basicamente, ao segurar uma máquina com a mão, deve-se usar a velocidade acima da distância de alcance da lente. Assim, se você está usando uma lente com alcance em 300mm, o tempo de exposição deve ser maior que 1/300s. Lentes com estabilizador de imagem permitem fazer fotos com exposições um pouco mais baixas e, quando se tem pouca luz, como em ambientes florestais, deve-se cogitar o uso de aberturas grandes (n° de F baixo), ISOs altos, tripé ou flash.

Águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus) - A aproximação de 300mm com uma velocidade de 1/400s foi suficiente para congelar a ave, apesar de seu movimento natural, que ficou acentuado na ponta das asas.

Abertura

É a medida de abertura do diafragma. Quando o mesmo está muito aberto (n° de F baixo) tem-se uma maior incidência de luz. A vantagem de captar mais luz diminui a amplitude focal da imagem, ou seja, com abertura alta (ex. F5.6) tem-se o foco em um plano somente. Assim, se o assunto for uma ave e ela estiver no foco, tudo o que estiver logo na frente dela e tudo o que estiver logo atrás ficará desfocado. Com aberturas mais fechadas (n° de F alto) tem-se maior amplitude focal, porém necessita-se de mais luz para que o tempo de exposição seja suficiente para realizar uma foto clara e não tremida. Caso contrário, sua foto ficará muito escura ou então tremida, com uma exposição baixa, podendo ser compensada com o uso de ISOs mais altos. Quanto ao foco, quando o assunto é uma ave ou outro animal, é sempre preferível deixar o foco exatamente no olho.


Caninana (Spilotes pullatus) - O foco no olho da serpente 
obturador bem aberto (F5.6) fizeram com que o corpo do animal 
ficasse cada vez mais desfocado assim que se distancia da cabeça. 
Nesse caso, o uso de uma abertura mais fechada, teria dado 
foco também ao longo do corpo do animal.

ISO

É a sensibilidade à luz. No entanto, perde-se qualidade na imagem conforme aumenta-se o ISO, ficando a foto com ruído, como que “pixelada”. Isso é particularmente notável no caso de fotos que precisam ser muito “cropadas”, pois ao cortar uma parte da foto e ampliá-la, acentua-se o ruído de ISOs altos. O ruído do ISO vai depender da máquina, mas seguramente ISO 200 não comprometerá a foto, no entanto, em ambientes escuros optar por ISOs altos pode ser uma saída para evitar o uso do flash, especialmente quando o assunto está bem próximo e não se precisa “cropar” muito a foto na hora de tratá-la.

Phyllomedusa sp. - Apesar de alto, o ISO 800 não causou muito ruído por conta da grande aproximação que eliminou a necessidade de "cropar" a imagem para que a perereca preenche-se todo o quadro.

Fotômetro

É uma escala que a máquina dá, indicando se os ajustes são suficientes para capturar a luz necessária. Fotometrar corretamente a exposição é tarefa nem sempre feita manualmente, em muitos casos os modos automáticos fazem isso (em meu caso, gosto muito de usar o ajuste AV - prioridade de abertura). Assim, quando o fotômetro está no zero a imagem deve sair com luz ideal. Se o fotômetro marca negativo, sua imagem deve ficar escura; e se positivo, muito clara, ou seja, "estourada". Mas é importante saber o que você quer fotometrar, ou seja, aonde você quer a luz ideal. Se você estiver fotografando o pôr-do-sol e quiser pegar a luz refletida nas nuvens, o que estiver abaixo do horizonte possivelmente ficará escuro. Se você quiser pegar uma ave em um dia nublado ou no contra-luz, se fotometrar o céu, sua ave ficará escura, apenas com uma silhueta. Uma solução aqui é estourar o fundo para que a ave - o assunto de interesse - apareça com os detalhes.

Gavião-de-cabeça-cinza (Leptodon cayenensis) - O céu cinzento obrigou
aumentar a exposição em +2 para que a foto pudesse captar as
características da ave, mesmo que o fundo tenha que ter sido estourado.

Luz

Observar a luz, reparar os efeitos que a mesma causa na paisagem, nos objetos, nos animais e nas plantas é parte da rotina do fotógrafo. Conforme o tom que a luz assume a foto possui um clima diferente, o qual se associa a algum sentimento que despertará no observador. A melhor hora para a fotografia, sem dúvida, é no começo da manhã e no fim da tarde, sendo que o período do meio-dia possui uma luz muito forte, a qual cria sombras muito duras. Dias nublados, por incrível que pareça, podem emanar luzes muito interessantes, já que não produzem sombras fortes. Dias assim podem ser aproveitados para fotografar plantas e animais.

Interior da floresta no Parque Estadual do Turvo - A luz suave do fim da tarde, junto com o verde das folhagens, reflete um sentimento ameno ao se observar a foto. 

Enquadramento

Enquadrar corretamente é algo muito importante na hora de compor uma foto. Uma maneira de aplicar esse fundamento é colocar o assunto principal não no centro da foto, mas sim numa posição chamada de regra dos terços. Ou seja, divide-se a foto em nove retângulos e coloca-se, por exemplo, o assunto onde a primeira linha vertical encontra a segunda linha horizontal. No caso de animais procura-se sempre deixar um espaço maior a frente de onde a cabeça ou o olhar esteja apontando, o que dá uma sensação de movimento ao assunto.

Mergulhão-pequeno (Tachybaptus dominicus) - Optou-se por enquadrar a ave de maneira a deixar espaço à sua frente e fundo, afim de mostrar mais seu habitat e dar sequência ao movimento natural da ave.

Composição

Diz-se que a melhor composição é aquela que prende o olhar do observador e isto, muitas vezes, se atinge da maneira mais simples e direta. É tarefa do fotógrafo organizar de maneira criativa as formas que a natureza dispõe. Às vezes é preciso que o fotógrafo se desloque até atingir um bom ângulo, um fundo que não seja confuso, uma luz mais adequada, etc.

Gavião-peneira (Elanus leucurus) - Esperou-se o momento certo até que a ave se posicionasse de maneira que a lua estive ao fundo.

Beleza

Ao invés de buscar o trágico, o objeto de busca do fotógrafo de natureza é o belo. E para isto, às vezes, é preciso muito esforço e dedicação, no fim, porém, o sentimento é muito gratificante, tendo tudo valido a pena.

Gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus) - De longe mal percebia-se a beleza desta ave, porém ao se aproximar, e ainda mais com a lente 400mm, permitiu-se captar melhor as características da ave, afim de revelar sua beleza.

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Veja também:

Perfil do Fotógrafo de Natureza

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10 comentários:

  1. Muito bom Dante, uma verdadeira aula passada ponto a ponto de forma muito elucidativa. Lindas ilustrações. Parabéns.

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    1. Obrigado, Charles! Certamente tenho muito a aprender, sendo que vale a pena dar uma conferida em livros de fotógrafos profissionais para adentrar mais a fundo... Um grande abraço!

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    2. olá Dante!

      Uma pergunta: Qual seria uma boa camera e uma boa lente para iniciar no mundo das dSLR's?

      Me indicaram adquirir uma nikon d3000 ou superior com uma lente 70-300mm

      qual seria tua opinião!!?

      Grande abraço.

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    3. É uma boa escolha. Eu particularmente uso Canon, mas as Nikons são muito boas também.

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  2. Parabéns pela clareza e generosidade nas suas dicas, não vejo a hora de estar em meio à natureza com a minha nikon e colocá-las em prática! Tudo de bom pra ti!

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  3. Lindas fotos Dante! Acompanho seu trabalho faz um tempo e acho extremamente gracioso! Parabéns pelas capturas!

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  4. Paulo Fernando Bertagnolli9 de setembro de 2015 10:40

    Legal Dr. Dante. Vou ter que estudar mais a abertura, o chamado fator F. Em geral é utilizar um fator F baixo, pois só quero focar uma ave e não o fundo.

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    1. Valeu Paulo!! Isso... Eu gosto de deixar o F uns dois pontos acima da abertura máxima da lente, porque dizem que potencializa a definição da mesma e facilita pegar o foco da ave, mas não desfoca tanto o fundo... Abraço!

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  5. ola qual dessas duas camera é melhor pra fotografar aves uma eos 5000 conan analogica filme 35mmm....ou uma nikon coolpix 315 L tenho os 2 modelos aqui toda ajuda pode me ajudar

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  6. ola Dante, estou comprando uma câmera fotográfica e estou com umas duvidas, a qual você me recomenda?
    a maquina P610 ou a P900??
    ou a EOS REBEL T5 ou a EOS REBEL t5i?? essas com lentes 75/250mm
    tenho como objetivo fotografar pássaros, animais e fungos...

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