Projeto Ave Missões: Pesquisa, Educação Ambiental e Conservação com Aves da Região Noroeste do Rio Grande do Sul

terça-feira, 25 de abril de 2017

Com ou sem lifers passarinhando em Porto Mauá

Miudinho em Porto Mauá. Foto: DAM.
*por Dante Andres Meller
Bem sabem os passarinheiros o sentimento de descoberta, euforia e contentamento que um lifer traz.

É algo tão empolgante que quando falta, falta sabor, falta empolgação, falta o algo mais.

A questão então é mais ou menos essa: É possível uma boa passarinhada sem esse tipo de novidade? Vamos tentar descobrir...


Esse fim de semana fomos observar aves com o Grupo Ave Missões em Porto Mauá, município da fronteira noroeste que faz divisa com a província de Misiones, Argentina. É interessante observar que do outro lado do rio Uruguai a mata é mais preservada, com diversos fragmentos expressivos e um Refugio Privado de Vida Silvestre (RPVS Chancay). Esse é um dos motivos que alimentam expectativas de aparições raras em Porto Mauá, assim como em toda a fronteira noroeste de um modo geral.


A considerar pelo número de espécies observadas, foi um sábado bem produtivo, finalizando em cerca de 90 espécies (veja a lista!). Tivemos alguns registros de espécies estadualmente ameaçadas de extinção, como a borralhara e a marianinha-amarela. Também ocorreram encontros incomuns, como o chocão-carijó, o miudinho e o cuiú-cuiú. O registro de um papa-taoca-do-sul nos deixou um pouco intrigados, pois não temos bem certeza se a vocalização era proveniente do nosso lado ou do outro lado do rio, o que pareceu o mais provável. Enfim, o registro de um araçari-castanho coroou a saída em estilo muito contentador, deixando-nos de certa forma satisfeitos com os resultados, ainda que tenha faltado uma aparição mais surpreendente, como um rapinante raro, etc.

Grupo Ave Missões com rio Uruguai e cidade de Porto Mauá ao fundo. Foto: Márcia Koch.

O que nos desperta para a observação de aves?

Essa reflexão nos coube muito bem nessa saída e quero desenvolvê-la um pouco aqui. Quando começamos a sair para observar aves parece claro o motivo pelo qual tiramos tempo para isso, mas com o tempo, e o aperfeiçoamento da atividade, pode ficar obscura a motivação inicial, e muitas vezes temos que nos redescobrir como observadores. Um gavião-carijó... uma juriti-pupu... um tico-tico! nos chamam atenção ou simplesmente desprezamos sua presença? Existem detalhes sobre o gavião-carijó, por exemplo, que nos são desconhecidos, assim como das outras espécies mencionadas. A questão, penso eu, não é tanto o que observamos, mas como observamos que faz de nós um verdadeiro observador de aves. Além do mais, gostamos de estar na presença das aves... é o tipo de liberdade que nos liberta de nossos problemas, de nossas rotinas, de nossas preocupações. Portanto, passarinhar sempre é bom! Vamos lá...

Gavião-carijó (Rupornis magnirostris). Foto: Ataiz C. de Siqueira.

Juriti-pupu (Leptotila rufaxilla). Foto: Adaltro C. Zorzan.

Tico-tico (Zonotrichia capensis). Foto: Ataiz C. de Siqueira.

Trilha das Três Bocas

A passarinhada começou de fato com a Trilha das Três Bocas, onde logo no começo apareceu uma quantidade de pássaros que nos deixou entretidos por um certo momento...

Miudinho (Myiornis auricularis). Foto: DAM.

Chupa-dente (Conopophaga lineata). Foto: Ataiz C. de Siqueira.

Beija-flor-de-topete-azul (Stephanoxis loddigesii). Foto: Adaltro C. Zorzan.

Tiê-preto (Tachyphonus coronatus). Foto: Ataiz C. de Siqueira.

Marianinha-amarela (Capsiempis flaveola). Foto: DAM.

Tororó (Poecilotriccus plumbeiceps). Foto: DAM.

Perto do fim da trilha, onde há uma pequena cascata, encontramos a borralhara. Era um macho que, respondendo bem ao playback, deu algumas chances pra foto.

Borralhara (Mackenziaena severa) macho. Foto: Adaltro C. Zorzan.

Grupo Ave Missões na cascata ao fim da trilha. Foto: Márcia Koch.

Mirantes do rio Uruguai

Um dos atributos mais chamativos nesta saída são as paisagens. Caudaloso, o rio Uruguai serpenteia de forma majestosa, rodeado por encostas coroadas com aquele verde cada vez mais raro nos dias atuais. O local possui dois mirantes próprios para vislumbrar a paisagem. Perto do primeiro mirante encontramos um chocão-carijó. Nesse local também foi ouvido um gaturamo-bandeira e pouco acima um grupo de cuiú-cuiú. No segundo mirante, assim como no ano passado, apareceu o bentevizinho-de-penacho-vermelho. Ali também ouvimos o papa-taoca-do-sul, possivelmente situado em território argentino.

Chocão-carijó (Hypoedaleus guttatus). Foto: Ataiz C. de Siqueira.

Grupo Ave Missões no mirante da Trilha das Três Bocas. Foto: Márcia Koch.

Rio Uruguai na Comunidade Três Bocas em Porto Mauá. Foto: DAM.

Bentevizinho-de-penacho (Myiozetetes similis) à beira do rio Uruguai em Porto Mauá. Foto: Ataiz C. de Siqueira.

Pequenos detalhes

Na trilha também não deixamos de notar aqueles detalhes que são chamativos aos nossos olhos. Os fungos, como sempre, atraem nossa atenção.







A Estrada da Volta Grande

Esse é o trecho onde há o mato mais denso. A estrada cruza o mato a algumas dezenas de metros do rio Uruguai. Nesse local ouvimos alguns tiês-do-mato-grosso (tiê-de-bando) e possivelmente o arapaçu-rajado, mas sem confirmação. Arriscamos também o playback do barranqueiro-de-olho-branco (vai que...), mas sem sucesso. A diversão ficou em observar o beija-flor-de-papo-branco em um malvavisco. Também ouvimos o flautim e o cabecinha-castanha.

Beija-flor-de-papo-branco (Leucochloris albicollis). Foto: Ataiz C. de Siqueira.

Integrantes do grupo observando aves na Estrada da Volta Grande. Foto: Márcia Koch.

A contemplação de aves

Sabe aquele poema de Mário Quintana que diz: "O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você."? Então... a observação de aves tem dessas coisas (fato!). É meio difícil de explicar, mas quando relaxamos aí é que as coisas muitas vezes acontecem. Digo relaxar, mas não ficar desatento. Atenção sempre, mas obsessão nunca! O que aparecer é lucro. E se nada aparecer, paciência... curta a natureza! Até porque os lugares onde costumamos ir observar aves são por si só um achado, um presente.

Araçari-castanho (Pteroglossus castanotis) encontrado em frente à gruta de São Francisco de Assis, em um momento de relaxamento. Foto: DAM.

Para encerrar o dia

Pouco antes de retornarmos para casa, começamos a reparar aquelas espécies que não haviam sido registradas ainda em Porto Mauá no site do WikiAves. Conseguimos adicionar algumas espécies e, por incrível que pareça, vibrávamos com cada registro, mesmo os mais comuns. Isso nos trouxe uma grande lição sobre observar aves. Mas por que mesmo que as observamos?... Passarinheiros que o digam!

Integrantes do grupo observando pombas se alimentando na resteva do soja. Foto: Ataiz C. de Siqueira.

Príncipe (Pyrocephalus rubinus) em milharal em Porto Mauá. Foto: Adaltro C. Zorzan.


Gavião-peneira (Elanus leucurus) caçando ao pôr-do-sol em porto Mauá. Foto: Adaltro C. Zorzan.

Obrigado a todos os participantes e também ao pessoal da comunidade das Três Bocas pelo excelente almoço! Um abraço e até a próxima.

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Veja também:

Os pássaros da costa do Sapucay
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19 comentários:

  1. Beleza de relato Dante. Muito expressivo!!!

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    1. Valeu Adaltro, e obrigado pelas fotos! Abraço

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  3. Parabens a todos do Grupo Ave Missões, belo relato!

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    1. Obrigado Pedro, agora estamos só por CA e o jardim dos Sessegolos mês que vem! Abraço

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  4. Como sempre, Dante, levando-nos a refletir sobre alguns atos que passam a se tornar rotina em nossas vidas(tipo deixar de prestar atenção às coisas normais... a idéia de que sempre precisamos encontrar algo novo, etc)... Muito boa a reflexão... Abraço a todos os avemissioneiros e aos passarinheiros que nunca desistem!!!

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    1. Obrigado Furini! Isso mesmo, a questão era sobre observar aves, mas como você bem falou, podemos aplicar em vários aspectos de nossa vida... Grande abraço!

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  5. Barbaridade amigo, obrigado pelo fantástico, e refletivo, relato. Abraço

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    1. Esqueci de mencionar que fico muito feliz em ler os teus relatos e que eles são fonte de inspiração. Fica na paz

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    2. Muito obrigado meu amigo!! Grande abraço!

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  6. Belíssimo relato, meus parabéns! Grandes registros e belas fotos...

    Ass.:Lucas N de Porto Alegre - RS

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    1. Muito obrigado Lucas! Grande abraço

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    2. Dante, tem alguma informação sobre o lançamento do guia das aves do noroeste? Abraço.

      Ass.:Lucas N de Porto Alegre - RS

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    3. Lucas, em breve deve sair... talvez mês que vem... obrigado pelo interesse! Grande abraço

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